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Honoráveis Bandidos (Palmério Dória) IV

CAPÍTULO 2 – A URNA DO ZÉ

Como foi que o menino Ribamar virou Sarney

Pai de José Sarney

Uma história alegra o anedotário político maranhense desde os idos de 1950. Pelas ruas de São Luís, lá vai o desembargador Sarney Costa. Carrega numa das mãos alguns livros, e uma caixa de madeira embaixo do outro braço. Tem forma de pirâmide, mas com o topo cortado e um tampo com uma fenda no centro. Ele só largava a caixa e os livros se passasse em frente de alguma igreja, para poder ajoelhar-se e fazer o sinal-da-cruz.

Presidente da ABN (1964-66)

O desembargador, que chegou a presidente do Tribunal de Justiça, tinha um tique não muito raro, de piscar e repuxar para cima um dos olhos junto com o canto da boca. Foi ao Rio de Janeiro, inclusive, consultar-se com um grande neurologista que lhe indicaram, doutor Deolindo Porto. Mas desistiu na primeira consulta: o homem tinha o mesmo cacoete que ele. O Sarney pai, que mais tarde daria nome a povoações e a tudo quanto é logradouro e prédio público Maranhão afora, quando o paravam na rua e perguntavam que caixa era aquela que carregava, respondia, batendo na madeira:

“esta é a urna do meu filho Zé.”

O povo aumenta, mas não inventa. A parábola da urna evidencia a quem José Sarney deve sua carreira política. Ele começa sem identidade própria. É apenas o “Zé do Sarney”, por sua vez com tal nome registrado porque o avô do nosso herói, diz a história, quis homenagear um inglês ilustre que aportou a serviço no Maranhão e a quem todos chamavam de Sir Ney.

Honoráveis Bandidos (Palmério Dória) III

CAPÍTULO 1 – ESTADO DE PERMANENTE SOBRESSALTO

VENCEU SOB RISCO DE IR PARA AS PÁGINAS POLICIAIS

Pobre do congressista que viesse com conversa de moralidade naquele 2 de fevereiro de 2009. Todo o mundo sabia que a plataforma do rival de Sarney, o petista acreano Tião Viana, uma das primeiras providências era afastar o diretor-geral do Senado, Agaciel Maia. Quem em Brasília não sabia de sua casa de 5 milhões, às margens do Lago Paranoá, com quase mil metros quadrados, três andares, cinco suítes, campo de futebol, piscina em forma de taça e píer para barcos e lanchas, escamoteada em nove do irmão? Casa que o irmão, deputado João Maia (PR-RN), escondeu da Receita Federal e da Justiça Eleitoral, e para justificar tal fato, Agaciel usou o cândido argumento de que não podia pôr a casa em seu nome porque estava com os bens indisponíveis devido a outro rolo, conhecidos com escândalo da gráfica do Senado – no ano eleitoral de 1994, candidatos imprimiam à custa do dinheiro público material de propaganda eleitoral. Adivinhe quem se beneficiou dessa galcatrua? Acredite se quiser: entre outros, a filha de Sarney, Roseana, então deputada e candidata vencedora ao governo do Maranhão, numa eleição que ela ganhou na mão grande, como veremos daqui a pouco; e dois chegados de Sarney, que desfilarão pelas páginas deste livro em mil tramoias, aguarde: Edison Lobão e Alexandre Costa.

Do Maranhão, nenhuma das candidaturas foi cassada com o estouro da pouca-vergonha. Sobrou para quem não era tão chegado ao clã dos Sarney, Humberto Lucena, do PMDB paraibano, que teve a candidatura a governador impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral, TSE.

Em 1994, Agaciel era o diretor da gráfica, em terreno do tamanho de dois campos de futebol, com máquinas maiores, mais modernas e em maior número do que as da Editora Abril, que se gabava de ter o maior parque gráfico da América Latina. Com cerca de 600 servidores, a maioria terceirizados e apadrinhados dos senadores, essa gráfica se dedica a imprimir, em papel de primeira classe, bobagens de segunda categoria – autoelogios, autobiografias adocicadas, biografias da parentalha.

Você acha que Agaciel caiu e a gráfica saiu fora do controle do grupo de Sarney? Engana-se. No gabinete do diretor da gráfica, todo forrada de mármore, reina há dozes anos no cargo Júlio Pedrosa, que é apadrinhado de Agaciel, que é apadrinhado de Sarney.

Agaciel publicou oito livros pela gráfica do Senado, um deles sobre senadores de sua terra natal, o Rio Grande do Norte. Ele entrou para o convívio da família Sarney graças ao tal escândalo da gráfica de 1994; e virou o homem do cofre do Senado, cargo que ostenta o pomposo nome de “ordenador de despesas” e que ele exerceu por 14 anos, até que o novo escândalo, o caso da mansão, saiu nos jornais 28 dias depois da posse de Sarney na presidência da Casa, bem no começo de março de 2009. Qual jornalista desconhecia que Agaciel tocava uma fantástica fábrica de nomeações e multiplicação de cargos, funções, diretorias, até com sala secreta? Quem não sabia que ele sempre havia sido homem de Sarney, por Sarney indicado em 1995? E das recepções, peladas de futebol, da vida de nababo do galã boa-pinta? Uma ligação tão grande, que Sarney não pôde deixar de ir no festão de casamento da filha de Agaciel, apadrinhada por ele, ao som da trilha sonora do sugestivo filme O Poderoso Chefão, mesmo com o diretor-geral caído em desgraça.

No entanto, quando o escândalo estourasse viria a mídia a noticiar como grande novidade. Tião Viana, além de apelar para a moralidade, tentou também colar sua imagem à de Barak Obama, herói daqueles dias. A novidade contra a velharia. Otimistas chegaram a acreditar numa “virada”, ainda mais quando o governador de São Paulo, José Serra, e o próprio presidente do Partido da Social Democracia, o senador pernambucano Sérgio Guerra, anunciaram apoio dos tucanos a Tião. Com esta adesão, nos cinco minutos a que tinha direito, falando antes de Sarney, Tião lembrou o bordão “Yes, we can”, do recém-eleito presidente, entro em clima de “sim, nós também podemos”. Foi massacrado. Nem pôde sentir o gostinho da derrota apertada: foi uma lavada de 49 a 32 para Sarney.

Qualquer ser humano estaria em estado de graça. Mas não quem vivia em estado de permanente sobressalto, antevendo a mortal possibilidade de mais uma vez o sobrenome Sarney aparecer nas páginas da crônica policial.

Honoráveis Bandidos (Palmério Dória) II

CAPÍTULO 1 – ESTADO DE PERMANENTE SOBRESSALTO

Você pode ler também Honoráveis bandidos I (aqui)

MEIAS DE SEDA, QUIETO, DISSIMULADO

Michel Miguel Elias Temer Lulia, paulista de Tietê, nascido em 1940, é advogado, pai de três filhos. Casou em segundas núpcias em 2003 com uma jovem 42 outonos mais nova , “aspirante a Miss Paulínia”, de 20 anos.

Temer desponta no mundo político no começo da década de 1980. Filiado ao PMDB desde 1981, elegeu-se deputado federal em 1986. Foi secretário de Segurança no governo de Franco Montoro. Professor universitário de direito. Jeito cerimonioso, formal e educado.

Em 1990, Luis Antônio Fleury Filho se elege governador de São Paulo, numa eleição difícil bancada pelo governo Oreste Quércia – “quebrei o Banespa, mas elegi meu sucessor”, a frase de Quércia entrou para os anais da política desta Era Sarney. Pouco depois do massacre do Carandiru, em outubro de 1992, Fleury Filho indica Michel para a Segurança Pública. Ele organizou a Secretaria, criou condições de trabalho, deu recursos técnicos e operacionais.

Os admiradores e eleitores sabem que, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que conteve o crime organizado, foi a época de melhor coexistência pacífica entre jogo do bicho e cassinos clandestinos de um lado, e de outro lado o alto comando da polícia. Não se sabe de escândalo em sua gestão, mas não há quem não saiba em São Paulo que o comando da jogatina organizada e o impoluto jurista encarregado de reprimi-la se dava às mil maravilhas.

Michel talvez seja um dos políticos mais dissimulados do país. Não tem a arrogância de ACM, o sentimento oligárquico e o provincianismo de Sarney, o pavio curto de Ciro Gomes, os ademanes gatunos de  Renan Calheiros. Usa abotoaduras de Saville Road, o templo londrino dos elegantes, ou as compra em Roma, quando vai dar aulas de direito como professor convidado. As meias são as mesmas de outro elegante, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, de seda pura. A coleção de gravatas concorre com as 4 mil deixadas na mansão do Cosme Velho por Roberto Marinho, o general civil da ditadura militar. O cabelo, tingido, não chega a ser ridículo com o negro asa-de-graúna do presidente do Senado, que aparece ao seu lado nos jornais do dia seguinte ao indigitado 2 de fevereiro de 2009. A voz é do tipo frequência modulada, imperturbável e serena. Não há testemunho de uma grosseria, um ato tosco, um palavrão, um agravo que tenha partido de sua figura bem posta.

No romance do cubano Alejo Carpentier, O Recurso do Método, o refinado e culto governante de uma nação caribenha é, ao mesmo tempo, sanguinário ditador. O jurista Michel Temer, poderoso presidente da Câmara dos Deputados na década de 1990, foi ao mesmo tempo dono de um pedaço suculento da administração pública. Foi o padrinho, o chefe, o protetor de quem operou o maior esquema de corrupção da história das docas de Santos, maior porto comercial da América Latina. Por lá passam 25% do que o Brasil importa ou exporta, e lá reinava um homem seu, um apadrinhado seu.

Atende pelo nome de Wagner Rossi. Político de Ribeirão Preto, intimamente ligado ao quercismo, mas também a qualquer governo que possa lhe dar algo em troca. Na superintendência do porto de Santos, onde 8 mil estivadores pegam no pesado e 40 navios estão em operação num dia comum, Wagner Rossi criou um estilo debochado e extrovertido para não fazer nada pelo resto da vida, ele e os descendentes.  Recebia empresários e fornecedores com um procedimento que marcou sua administração e traumatizou a maior parte de suas vítimas. Precavido, tinha no gabinete um aparelho de som potente, sintonizado nas mais inesperadas emissoras de Santos. E ao som de baladas brejeiras ou rock pauleira, tocados em altos decibéis, atendia os interessados. Assim evitava gravações. Falava quase no ouvido das pessoas, sussurrando uma cantinela de administrador ímprobo. Com se fosse o mímico Ricardo “Marcel Marceau” Bandeira das docas santistas, na calada do gabinete fechava os acordos mais espúrios com uma gesticulação que enojava ou divertia os empresários importadores ou exportadores. Sorridente, arregalava os olhos, levantava as mãos e esfregava freneticamente indicadores e polegares, sinal de dinheiro desde que o dinheiro existe.

Se todo o empresariado brasileiro sabe disso, se toda a classe política sabe, se toda a imprensa nacional sempre soube, e agora você também já ficou sabendo, como Michel Temer não haveria de saber?

Este era o novo presidente da Câmara, que aparecia nas fotos praticamente amparando o novo presidente do Senado, Casas que entrariam numa fase de escândalos dia sim dia não, um deles carimbado pela mídia como “farra das passagens”.

Pois não é que Michel Temer logo usaria o agora famoso ato secreto para absolver um colega que “farreou”? O presidente da Câmara perdoaria o deputado potiguar Fábio Faria (PMN-RN), e por extensão a outros parlamentares que usam nosso dinheiro para a tal “farra das passagens”. Em dezembro de 2007, Fábio Faria levou, para animar seu camarote de “carnaval fora de época” em Natal, artistas e a apresentadora de televisão Adriane Galisteu, a quem atribuiu o status de “namorada’.

Michel arquivaria o caso em 3 de junho de 2009. Respaldou a decisão em pareceres técnicos, pelos quais o erário pagou R$ 150 mil. A “análise ética”, que custou R$ 70 mil, foi do professor da Universidade de São Paulo Clóvis de Barros Filho, que ao jornal O Estado de S. Paulo declarou, em 24 de junho:

“Meu parecer é um pouco broxante, enigmático, porque não oferece uma condenação  apressada nem uma absolvição ingênua. Não tenho elementos para condenar ou absolver.”

Trata-se, como se vê, de uma versão caríssima do que teria dito, de graça, o político mineiro Benedito Valadares (1892-1973), aquele que ficava “rouco de tanto ouvir”. Valadares simplificaria a questão, dizendo o seguinte:

“Deputado levar com dinheiro público acompanhante de luxo para evento carnavalesco, não sou contra nem a favor, muito pelo contrário.”

Já o parecer “jurídico” foi de Manoel Gonçalves Ferreira Filho. Ao Estadão, este homem da lei disse sobre a ajuda de custo para comprar passagens de avião:

“Consiste na alocação de uma verba ao parlamentar para que este se transfira, com sua família, com suas amizades mais íntimas, seus empregados, animais de estimação, etc., bem como os pertences de sua conveniência para a referida sede.”

Portanto, opina o jurista, ninguém tem nada com isso, se o parlamentar leva até a cadela para passear de avião. É, segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho, questão “de foro íntimo”. Seu parecer nos custou mais caro: R$ 80 mil. Parece que, com tão doutos pareceres encomendados pelo  presidente da Câmara, a farra das passagens está doravante autorizada.