Joaquim Barbosa deu uma entrevista reveladora

“O problema é pensar que os outros é que são o monstro!”
Quando se faz uma análise, utiliza-se abordagens ou ferramentas com certo grau de sensibilidade e especificidade que pode ser maior ou menor. Geralmente, quanto mais sensível menos específico e vice-versa. É importante que se faça mais de uma análise e se dose sensibilidade e especificidade de formas diversas em cada uma delas. Sempre haverá prejuízos e erros nas análises. Assim, arrisco-me a utilizar uma abordagem mais sensível na análise da entrevista concedida por Joaquim Barbosa a Roberto D’Ávila. As abordagens sensíveis não são boas para demonstrar a presença de determinado fenômeno, mas são muito boas para excluir. E acho que neste caso não excluiu, portanto, há a possibilidade da presença do fenômeno.
No primeiro momento pretendo verificar a abordagem do entrevistador, por um ângulo diferente do apresentado por outros blogs e espaços das redes sociais. Quero verificar se houve, além da condescendência alarmada, algo há mais. Algo diferente. Algo ao contrário, provocador. E no segundo momento acentuar que o entrevistado falava de algo diferente do que o entrevistador e muitos leitores pensam.
D’Ávila dá suas cutucadas
Não vejo porque Roberto D’Ávila devesse ter perguntado por apartamento em Miami, ou sobre a indicação por Frei Betto, como queria Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo. Afinal o programa é de entrevista com personalidade marcada por conversas reflexivas, não exatamente provocativas, e fazendo perguntas que o telespectador gostaria de fazer. Mas quais telespectadores?
Haver um embate entre entrevistador e entrevistado é normal, até mesmo esperado. As provocações podem inclusive estimular e fazer emergir dados, opiniões e até mesmo sentimentos reprimidos ou ocultos. Roberto D’Ávila parece realizar isto de forma às vezes direta, mas, também, de forma muito sutil, e com certa dose de ironia.
O ócio criativoDe início presenteia o ministro Joaquim Barbosa com o livro O Ócio Criativo, faz algumas alusões ao autor, de como ele viajou pelo mundo e que provavelmente ele também iria gostar já que gosta de viajar muito. Acho também que se referia sutilmente ao desprezo de Joaquim Barbosa pelo provincianismo, e apego pela Europa. Algo do tipo “síndrome de vira-latas”.
E quando Joaquim Barbosa responde em inglês, o entrevistador imediatamente lembra que em português é “assim, assim”. Fala em suposta fila imensa de entrevistadores, agradecendo pela oportunidade, diante de um Joaquim Barbosa apático (ao menos inicialmente). E lasca um “o senhor não é nenhum Getúlio Vargas”, e questiona se ele vai se lançar aos braços do povo, em referência ao “volto nos braços do povo”. Joaquim Barbosa continua meio lento e cabisbaixo.
Diante de fofocas sobre o afastamento de Joaquim Barbosa do Supremo, por diversos motivos, desde se lançar ao embate eleitoral, até não ficar sob a presidência de seu colega Lewandowski, reforça a pergunta, datando em Ricardo Lewnovembro, quando deixa a presidência. Será uma cutucada? Já que, em verdade, ele teria mais onze anos (como afirma mais a frente) e nesta data a única questão relevante é a troca de presidência, e a assunção de Lewandowski à presidência do Supremo. Por que esta data? Nela ele não poderia mais se lançar candidato. Não faria sentido, a pergunta especificamente para esta data. Na verdade, D’Ávila aponta perguntando: “- o senhor preside o Supremo até novembro deste ano?”

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Na sequencia, mais adiante, o entrevistador tenta traçar um pouco o perfil psicológico de Joaquim Barbosa, e pergunta sobre sua timidez, e diante do relato da experiência transformante de Joaquim Barbosa na Europa, novamente, cutuca que ele naquele país (Finlândia) com “Pessoal branquinho, o senhor devia fazer um sucesso louco lá…” Ora, os países nórdicos apresentam frequentemente cargas elevadas de preconceito e xenofobia. Na Finlândia isto não é diferente como vimos em frequentes relatos. Mas, Barbosa desconversa e fala sobre o mundo novo que se abriu para ele durante este período.
Depois diz que Barbosa não gosta de seguir a tradição (uma referencia a seu comportamento no STF?)
D’Ávila faz quase uma afirmação e não uma pergunta ao dizer: “Agora o senhor nunca teve uma participação política naquele momento?”, mas diante da confirmação de Joaquim Barbosa, ele arremata que observador, mas observador atualmente engajado. Uma referência à condução da AP470?
Provoca Joaquim Barbosa, perguntando-lhe sobre o que faz para manter a harmonia dos três poderes, diante de um cenário, às vezes quase bélico entre o ministro Joaquim Barbosa e os presidentes dos outros dois poderes. Ele voltaria ao tema de harmonia, mas agora dentro do próprio STF, e pergunta (novamente ACMquase afirmando) que o ministro é truculento (isto porque comparou com uma situação envolvendo a truculência de ACM) e ainda o chama de deselegante na comparação com a ministra Ellen Grace. E ainda lembra que ele está novamente sendo muitoellen gracie agressivo na entrevista: “os outros ministros não vão gostar, ein?”.

Barbosa tem um mundo próprio

Compreender as “razões” de Joaquim Barbosa é algo, também, para a Psicologia. Eu não sou psicólogo, mas como blogueiro atrevido, vou avançar um pouco este sinal amarelo. MAS DEIXO PATENTE A MINHA INCOMPETÊNCIA!
Para Piaget, “a peculiaridade da cooperação é justamente conduzir a criança à prática da reciprocidade, portanto, da universalidade moral e da generosidade em suas relações com os parceiros”. Há uma necessidade de coerência interna que garanta a conservação dos valores independentemente das pressões do meio social. O sentimento de obrigatoriedade gerado nas relações cooperativas não é fonte de desprazer. O sujeito autônomo não é um ‘reprimido’, mas sim um homem livre, pois livremente convencido de que o respeito mútuo é bom e legítimo. Ainda, para Piaget, há uma evolução no desenvolvimento da gratidão de uma heteronomia (aquilo que se faz conforme o dever) para uma autonomia (o que se faz por dever) que se desenvolve durante a infância. E lembra que há obrigações positivas como não mentir e não roubar. A autonomia aparece a partir dos 11-12 anos de idade, nela não é o juízo alheio que conta, mas trata-se de um reconhecimento espiritual de uma dívida simbólica. Deve-se retribuir porque é bom. A retribuição não é troca de favores, mas o amor quer alegrar a quem lhe dar alegria. A formação de consciência moral autônoma é uma possibilidade da espécie humana, mas depende das interações vivenciadas no meio social.
A gratidão faz parte do saudável e positivo desenvolvimento humano, e nela a pessoa reconhece a generosidade do outro e em resposta age de forma benevolente, o que lhe confere alto grau de satisfação na vida e afeto positivo, como felicidade, esperança e vitalidade.
Os pais são importantes no desenvolvimento e cultivo da gratidão, mas nem sempre os adultos estão disponíveis para tal tarefa, e há a possibilidade de se vivenciar contexto de risco para o enrijecimento e resistência ao seu desenvolvimento. Por exemplo, se um indivíduo não perceber nenhum aspecto positivo em sua vida diária e não cultivar emoções positivas. Isto é comum nas populações que vivem em situação de risco cotidiano, em que crianças são vítimas de diversas formas de violência física, moral e afetiva, vivendo sob extrema miséria e não recebendo a ajuda de outras pessoas.
paracatuAs lembranças de Joaquim Barbosa da infância talvez não seja das melhores. Aos dezesseis anos, deixou a família e a infância em Paracatu (MG) e foi para Brasília. Mas, antes disto, sob o rigor do pai (“rígido até demais!”) em embate com seu espírito rebelde, porém tímido, pode ter amargado muitos dessabores na infância, como o trabalho infantil e a pobreza que ameaçava roubar-lhe até a mais forte esperança, a de obter conhecimento, de aprender, de “saber as coisas”. Há alguns anos o ministro Joaquim Barbosa relatou que uma das piores lembranças da infância foi o ano que ficou longe da escola, porque a diretora resolveu cobrar mensalidade. Mesmo depois que foi para Brasília, a vida não foi fácil, e se dedicou muito, entre o trabalho de faxina, no TRE do Distrito Federal, e os estudos. Por uma coincidência da vida, ele enquanto limpava um banheiro e cantava em inglês (tem uma paixão por aprender línguas), deparou-se com um benfeitor que ficou admirado com a fluência do rapaz e o ajudou a mudar de funções, passando a contínuo e depois a compositor de máquina off set na gráfica do Correio Braziliense. Isto foi no início dos anos 1970, em plena ditadura. “Vi colegas que trabalhavam na imprensa do Senado sendo resgatados [presos] ali de madrugada.”
Neste emprego sofreu frequentes humilhações, mas segundo Joaquim Barbosa “foi difícil, mas acabei me estabilizando no emprego e mostrando o quanto era profissional.” [GRIFO MEU]. Para Joaquim Barbosa é muito importante a questão de poder demonstrar sua própria competência, sua potencialidade, seus méritos: “… até mesmo em função do meu desempenho escolar.” Fica, para este blogueiro a impressão que Joaquim Barbosa tem mesmo uma resistência em reconhecer o papel e contribuição de outros em suas conquistas, e, chegando mesmo a se voltar contra os seus benfeitores como uma forma de reafirmar sua própria potencialidade e independência. Observe-se como atribui a Lula a tentativa de o utilizar em marketing de supostos avanços do Brasil na questão racial ao convidá-lo para viagens ao continente africano, e como se exalta em relatar sua recusa a servir a estes supostos usos políticos. Sem, no entanto, procurar avaliar as questões de relações mútuas, de respeito e construção de políticas afirmativas, às quais já se mostrou favorável em seus votos em históricas sessões do STF. É como se a negativa fosse necessária a sua própria afirmação, além do prejuízo à formação de gratidão em seu caráter. A gratidão positiva e autônoma, não a vulgar, obediente.
Em relação aos poderes, apesar da independência dos poderes, para Joaquim Barbosa a presidência do poder Judiciário lhe põe apenas na terceira posição do Estado brasileiro. Aqui entra uma característica curiosa de Joaquim Barbosa. A tentativa constante de diferenciar a importância e papel políticos dos membros do Judiciário em relação ao Legislativo e Executivo. Parece-me algo meio que o Judiciário seria mais puro. “Prefiro me manter alheio a quase tudo que se passa aqui nesta praça dos três poderes que tenha caráter político.”
A rebeldia de Joaquim Barbosa o levou a não seguir a tradição de estudar em Belo Horizonte, mas de mudar seu destino e ir para Brasília. O ministro parece demonstrar um certo “desprezo” pela “caipirice” e não nutre empatia pelos costumes de sua terra natal e de conterrâneos. “Fizeram esta opção, eu…”. Parece fazer questão de esquecer o que Minas possa ter lhe ensinado: “… com a qual eu concordo. Ele disse o seguinte: – Joca é o mineiro menos mineiro que eu já vi na vida.” No passado, Joaquim Barbosa chamou Gilmar Mendes de caipira. Joaquim Barbosa parece ter um problema com o perfil caipira, tendo que reafirmar seus refinados gostos.
Para Joaquim Barbosa, na vida pública, o espaço ocupado por políticos é um de um “carreira política” meio que apartada da “vida pública” da qual ele próprio participa “… há quarenta anos…”. A jornalista (e blogueira) Conceição Oliveira publicou (em Maria Fro) sobre as contradições entre o discurso e a prática de Joaquim Barbosa. Concordo e disconcordo. Há um aparente descompasso entre o seu discurso e sua prática, mas é apenas aparente. É só reparar o seu discurso com mais acuidade. E a pergunta que faz é correta: “quem foi o grande maestro do maior apedrejamento de figuras públicas durante o julgamento midiatizado da AP470?”. E a resposta é óbvia. Mas repare que no discurso, Joaquim Barbosa ao falar sobre apedrejamento constante, não se refere aos políticos, mas a outros atores da vida pública (exceção aos políticos). Ele fala mais de si mesmo. Dos que fazem vida pública não política, não partidarizada. Aqueles das instituições como a qual ele pertence.
“R.D. O senhor falou outro dia que a vida pública política é quase um apedrejamento?
J.B.: É no Brasil. No Brasil, a vida pública tornou-se esse apedrejamento constante. Eu acompanho a vida institucional de alguns países. Hora mais de perto, hora um pouco à distância. E noto uma diferença fundamental.”
Assim, Joaquim Barbosa não se confronta, não se debate, não se contradiz com seus conceitos internos de fato. Ele os tem construído a sua maneira.

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Será isto, um pouco, o que ocorre com Joaquim Barbosa?

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