Entrevista com Joaquim Barbosa: terceiro bloco (último)

R.D.: O senhor acha que o Mandela foi o maior homem destes últimos séculos?

J.B.: Ah, eu não saberia dizer, não. Eu tenho admiração por alguns homens públicos. Eu o colocaria entre os grandes sim. Entre os cinco grandes.

R.D.: Lincons?

J.B.: Lincons. Ah, ah, me perdoe mas eu tenho um certo fascínio. Foi um ditador, etecetera, mas o tempo era outro. As circunstâncias eram outras. Mas eu tenho um fascínio. Estudei muito o Napoleão. E o que me fascina no Napoleão não é o Napoleão militar, mas o homem de Estado. E ele foi um grande homem de Estado.

R.D.: E dizem que o Direito Francês…

J.B.: Não é só o Direito. Instituições importantíssimas que hoje estão por aí, saíram da cabeça dele. Você olha a França de hoje. Duzentos anos depois. As realizações dele em quinze anos são gigantescas. É verdade, é homem que não tinha nenhum respeito pelo ser humano, pelas liberdades, etecetera.

R.D.: Aqui no Brasil nós podemos falar em Getúlio Vargas que foi um grande estadista?

J.B.: Sim, como muitos dizem. Dizem e esquecem que foi um ditador. Lincons, eu admiro muito. Acho que foi um presidente por acaso. Ocorre muito isto. Mas foi fascinante como ele lidava com seus adversários políticos que na verdade não tinham lá grande admiração por ele porque eram socialmente muito mais importantes do que ele.  E acabava reunindo estes rivais no seu gabinete. O secretário de Estado dele, o Seward, se não me engano um dos grandes secretários… três dos grandes secretários dele, eram os políticos que no imaginário de então seriam os presidentes, e não ele, um sujeito que fascinava quando falava, quando abria a boca. Contador de história…

R.D.: Vamos mudar um pouquinho de assunto. O senhor disse que detesta leviandade, estas coisas, né? Mas como é que o senhor lida com a fofoca? Porque a fofoca aqui em Brasília é muito grande, não é?

J.B.: Ah, hoje em dia eu não tomo conhecimento. Simplesmente, não tomo conhecimento. Dedico boa parte do meu tempo livre a outras leituras.

R.D.: A imprensa lhe incomoda muito?

J.B.: Incomoda um pouco a imprensa brasileira.

R.D.: Mas todos que estão no poder…

J.B.: Não, não. Eu sei muito bem o papel importantíssimo da imprensa. Mas a minha crítica é sobre a falta de debate de fundo. Eu acho que nós temos hoje uma imprensa muito calcada na pessoa, nas pessoas…

R.D.: E menos nas ideias?

J.B.: Menos nas ideias.

R.D.: Ministro, me esqueci você gosta muito de música. Falar de música. Música clássica? Música popular?

J.B.: De tudo. Gosto um pouco de tudo. Gosto muito de música popular. Gosto…

R.D.: Amanhã vai ter em São Paulo show de…

J.B.: Ah, adoro. É o príncipe da música popular brasileira. Eh… gosto de música pop. Já gostei muito de rock, hoje gosto bem meonos. Escuto bem menos. Agora o que mais escuto é música clássica e jazz. Nos últimos, sei lá, vinte anos…

R.D.: Bach, Bethoven, Morzat

J.B.: É um pouco de tudo. Eu só não escuto muito estes compositores ultramodernos. Os chamados, eu não sei nem pronunciar, os dodecafo….

R.D.: os dodecafonismos.

J.B.: Mas escuto com muita frequência os grandes compositores: Bach, Morzat, Beethoven, Brahms, Chopin. Minha iniciação na música se deu evidentemente pelo rádio, não é? E escutava um pouco de tudo. Na minha fase da adolescente, era época da jovem guarda. Escutava tudo aquilo. Logo depois veio o rock…

R.D.: Você era Beatles ou Rolling Stones?

J.B.: As duas coisas. As duas coisas. Eu lamento muito hoje em dia não ter tempo para ir aos concertos, grandes shows. Vou pouco.

R.D.: Falando em viagem, já quase chegando ao final, o senhor esteve na África recentemente. Foi emocionante para o senhor?

J.B.: Foi bastante. Especialmente, Gana e Angola, eu me senti, mas também fiquei um pouco mais de tempo nestes dois países. Mas é como está em casa. Especialmente em Angola. Angola é tão próximo.

R.D.: Parecidos, né?

J.B.: Tão parecidos. Poucos brasileiros sabem, mas sempre houve um… sempre houve, não! Durante trezentos anos, talvez, uma interação não só pelo tráfico de escravos, mas uma relação intensa entre Brasil e Angola. Claro, como o resto da África. Mas lamentavelmente a historiografia brasileira não dar o devido relevo para esta intensidade de relações.

R.D.: O senhor já chorou de raiva por causa do racismo?

J.B.: Ah, quando era jovem, sim. Hoje, eu…

R.D.: mas é claro hoje você é conhecido…

J.B.: É claro, hoje quando você se torna conhecido, se torna autoridade, o tratamento é outro, mas… eu era criança…

R.D.: Só quem viveu, sabe? Às vezes, eu chego a pensar que o racismo seja mais social do que… não dá pra entender que as pessoas se aproveitem para…

J.B.: O racismo está em todas as esferas. Ele não é só social, não. Ele é econômico. Ele interfere nas relações profissionais, nas relações sociais das pessoas. Eu desafio alguns rábulas, pessoas que têm esta tendência de minimizar o racismo. “Ah, porque eu me dou bem com todos.” Pergunte a estas pessoas “quantas vezes você recebeu um negro na sua casa como convidado?” Poucos vão ter esta resposta.

R.D.: Mas aí entra a questão do nível econômico…

J.B.: Claro. Evidente. Você vive. Você estabelece relações com pessoas do seu nível social.

R.D.: O que o senhor espera da vida?

J.B.: Eu? Sem planos.

R.D.: O senhor é muito moço. O senhor tem 59 anos.

J.B.: É deixa a vida me levar.

R.D.: Só sua vinda aqui no Supremo já é um combate ao racismo.

J.B.: Ah, não tenho, não trouxe pra cá. Não acho que eu tenha vindo pra cá com esta missão, não. De combater o racismo, não. Eu sempre achei que a minha presença aqui contribuiria para desracializar o Brasil. Desracializar as relações.

R.D.: Somos todos iguais.

J.B.: Isto. Para que as pessoas tivessem a sensação de que não há papel predeterminado para A, ou B, ou C. E eu espero que o dia em que eu sair daqui, os governos, os presidentes da república saibam escolher bem pessoas pra cá. Que escolham negros com naturalidade.

R.D.: O senhor acha que entrou em uma cota. Que com todo o seu preparo.

J.B.: Dizer que eu entrei por uma cota é uma manifestação racista. Por que? Porque as pessoas que fazem isto não olham meus currículos. Aliás poucas pessoas olham o meu currículo.

R.D.: E é espetacular o seu currículo.

J.B.: Pouca gente olha, né? Não interessa, o cara só ler a cor da pele…

R.D.: Mas o senhor foi o primeiro…

J.B.: mas eu espero o seguinte, que os presidentes nomeiem pra cá um certo número de homens e mulheres negros de maneira natural. Não façam estardalhaço disto. Não tentem levar a pessoa escolhida para a África para esconder uma realidade do momento. A realidade triste, muito triste de que nós não temos representantes negros na nossa diplomacia, nos nossos negócios…

R.D.: O Brasil se apresenta como um país de brancos, quando…

J.B.: O Brasil não se apresenta… o Brasil não tem com se apresentar de maneira diferente porque não há, não é? Os países africanos se ressentem muito disto. Como é que pode um País que tem cinquenta por cento da população negra, que não consegue escolher um número de embaixadores negros para mandar à África?

R.D.: Não se esqueça de falar de um assunto que talvez seja por aí que é a Educação, ministro.

J.B.: Pois é, as a educação foi negada. A gente não pode usar a educação como justificativa. Esta educação foi negada. E ela precisa ser outorgada. Ela precisa ser universalizada. Não é?

R.D.: Muito obrigado, ministro, por ter esta conversa com o senhor.

J.B.: Prazer.

http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/03/joaquim-barbosa-descarta-candidatura-nas-eleicoes-de-2014.html

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