do Blog do BRUNO DE PIERRO – Incêndios e desocupações

http://brunodepierro.blogspot.com.br/2012/09/incendios-desocupacoes-e-o-hegemonico.html

Incêndios, desocupações e o hegemônico capital imobiliário

Nas útimas semanas, alguns acontecimentos tem chamado atenção aqui na cidade de São Paulo. No dia 28 de agosto, cerca de 300 pessoas tiveram que deixar um prédio acupado há 9 meses, na região central. Segundo informações da Agência Brasil, o prédio era de um antigo hotel, localizado na altura do nº 900 da Avenida Ipiranga. O local foi tomado por mais de cem policiais, para fazer cumprir ordem da Justiça para reintegração de posse, obtida em abril pelo proprietário do edifício.

Hoje, um grande incêndio tomou a favela Sônia Ribeiro, na região Sul de São Paulo, localizada em uma pedaço valorizado, o bairro de Campo Belo, próximo ao aeroporto de Congonhas. Pouco mais de um mês atrás, em 27 de julho, outro incêndio acabou com vários barracos de um favela em outro ponto valorizado da cidade, no bairro da Vila Leopoldina. Aproximadamente 60 dos 200 barracos da favela da Vila Humaitá foram destruídos.

Existem outros exemplo, pontuais, de incêndios que vem tomando favelas localizadas em pontos estratégicos para a cidade que, diga-se de passagem, vive uma especulação imobiliária patológica (vide a situação dos shoppings centers). Outros exemplo de desocupação, então, nem se fala. Só na região da Luz, outra comunidade está sob ameaça da prefeitura de Kassab, e a qualquer momento pode ser despejada. Em contrapartida, o prefeito oferece albergues.

O jornalismo deve sempre levantar hipóteses, e depois confirmá-las ou não. Nesses casos de incêndios, as autoridades e as grandes construtoras tem a proteção do “desastre natural” e do “acidente”. Podem concluir, portanto, com apoio de perícias, que este ou aquele incêndio foram decorrencias de acidentes, provocados por um cigarro, um inflamável qualquer. Se houve intenção, é uma outra questão.

No caso de desocupações, a muleta é o mantra do capital: a propriedade privada é um direito. Tal discurso se apoia na lei e no argumento de que tal imóvel precisa ser reapropriado pelo dono – que havia até esquecido do imóvel -ou pela prefeitura, para que a região se valorize. Passam por cima do direito à dignidade e à moradia, uma vez que os imóveis foram ocupados exatamente porque se encontravam desocupados.

Não se trata de paranóia anti-Kassab ou teoria conspiratória. É a realidade: a cidade está nas mãos de grandes empreiteiras e grupos imobiliários, com o respaldo da prefeitura como sócia.

Sobre essa discussão, em fevereiro tive o prazer de entrevistar a ex-secretária de Habitação e Desenvolvimento Urbano no governo Luiza Erundina (1989-1993), Ermínia Maricato. Considerada uma das principais autoridades em urbanismo, Ermínia ajudou na elaboração do minha Casa Minha Vida. Nos últimos anos, desenvolveu uma crítica sistêmica sobre os problemas da cidade, levando em conta as lutas sociais e o poder hegemônico do capital imobiliário.

Ermínia Maricato em entrevista ao blogueiro, em fevereiro: “atende-se mais a nova classe média, e aqueles que estão na linha da pobreza continuam sem acesso”.

Apesar de passados 6 meses da entrevista, ela se mantém muito atual, principalmente quando Ermínia explica porque os grandes centros urbanos, como o de São Paulo, não aplicam as diretrizes do Estatuto da Cidade – entre elas a demarcação das Zonas Especiais de Interesse Social – e qual a relação entre a alta do preço das terras, o programa Minha Casa Minha Vida, que ajudou a formular, e as “operações urbanas”, que, segundo ela, estão mais preocupadas com a renovação do que com a recuperação dos centros históricos, como ocorreu na França e em Portugal.

Para ler a primeira parte da entrevista, clique aqui.
E para ler a segunda parte, clique aqui.

***

Fernando do Valle Barbosa, do Zona Curva, completa a informação sobre o incêndio no Campo Belo, com um dado muito importante:

O grave incidente acontece bem no momento em que se especula sobre a saída dos barracos devido à especulação imobiliária e o monotrilho da linha 17-ouro do metrô. A velocidade das obras do monotrilho neste ano de eleição que seguem até altas horas da
noite reforça a ‘coincidência’. No dia 28 de julho, um tumulto agitou a comunidade em protesto ao atropelamento de um adolescente 

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