Honoráveis Bandidos (Palmério Dória) III

CAPÍTULO 1 – ESTADO DE PERMANENTE SOBRESSALTO

VENCEU SOB RISCO DE IR PARA AS PÁGINAS POLICIAIS

Pobre do congressista que viesse com conversa de moralidade naquele 2 de fevereiro de 2009. Todo o mundo sabia que a plataforma do rival de Sarney, o petista acreano Tião Viana, uma das primeiras providências era afastar o diretor-geral do Senado, Agaciel Maia. Quem em Brasília não sabia de sua casa de 5 milhões, às margens do Lago Paranoá, com quase mil metros quadrados, três andares, cinco suítes, campo de futebol, piscina em forma de taça e píer para barcos e lanchas, escamoteada em nove do irmão? Casa que o irmão, deputado João Maia (PR-RN), escondeu da Receita Federal e da Justiça Eleitoral, e para justificar tal fato, Agaciel usou o cândido argumento de que não podia pôr a casa em seu nome porque estava com os bens indisponíveis devido a outro rolo, conhecidos com escândalo da gráfica do Senado – no ano eleitoral de 1994, candidatos imprimiam à custa do dinheiro público material de propaganda eleitoral. Adivinhe quem se beneficiou dessa galcatrua? Acredite se quiser: entre outros, a filha de Sarney, Roseana, então deputada e candidata vencedora ao governo do Maranhão, numa eleição que ela ganhou na mão grande, como veremos daqui a pouco; e dois chegados de Sarney, que desfilarão pelas páginas deste livro em mil tramoias, aguarde: Edison Lobão e Alexandre Costa.

Do Maranhão, nenhuma das candidaturas foi cassada com o estouro da pouca-vergonha. Sobrou para quem não era tão chegado ao clã dos Sarney, Humberto Lucena, do PMDB paraibano, que teve a candidatura a governador impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral, TSE.

Em 1994, Agaciel era o diretor da gráfica, em terreno do tamanho de dois campos de futebol, com máquinas maiores, mais modernas e em maior número do que as da Editora Abril, que se gabava de ter o maior parque gráfico da América Latina. Com cerca de 600 servidores, a maioria terceirizados e apadrinhados dos senadores, essa gráfica se dedica a imprimir, em papel de primeira classe, bobagens de segunda categoria – autoelogios, autobiografias adocicadas, biografias da parentalha.

Você acha que Agaciel caiu e a gráfica saiu fora do controle do grupo de Sarney? Engana-se. No gabinete do diretor da gráfica, todo forrada de mármore, reina há dozes anos no cargo Júlio Pedrosa, que é apadrinhado de Agaciel, que é apadrinhado de Sarney.

Agaciel publicou oito livros pela gráfica do Senado, um deles sobre senadores de sua terra natal, o Rio Grande do Norte. Ele entrou para o convívio da família Sarney graças ao tal escândalo da gráfica de 1994; e virou o homem do cofre do Senado, cargo que ostenta o pomposo nome de “ordenador de despesas” e que ele exerceu por 14 anos, até que o novo escândalo, o caso da mansão, saiu nos jornais 28 dias depois da posse de Sarney na presidência da Casa, bem no começo de março de 2009. Qual jornalista desconhecia que Agaciel tocava uma fantástica fábrica de nomeações e multiplicação de cargos, funções, diretorias, até com sala secreta? Quem não sabia que ele sempre havia sido homem de Sarney, por Sarney indicado em 1995? E das recepções, peladas de futebol, da vida de nababo do galã boa-pinta? Uma ligação tão grande, que Sarney não pôde deixar de ir no festão de casamento da filha de Agaciel, apadrinhada por ele, ao som da trilha sonora do sugestivo filme O Poderoso Chefão, mesmo com o diretor-geral caído em desgraça.

No entanto, quando o escândalo estourasse viria a mídia a noticiar como grande novidade. Tião Viana, além de apelar para a moralidade, tentou também colar sua imagem à de Barak Obama, herói daqueles dias. A novidade contra a velharia. Otimistas chegaram a acreditar numa “virada”, ainda mais quando o governador de São Paulo, José Serra, e o próprio presidente do Partido da Social Democracia, o senador pernambucano Sérgio Guerra, anunciaram apoio dos tucanos a Tião. Com esta adesão, nos cinco minutos a que tinha direito, falando antes de Sarney, Tião lembrou o bordão “Yes, we can”, do recém-eleito presidente, entro em clima de “sim, nós também podemos”. Foi massacrado. Nem pôde sentir o gostinho da derrota apertada: foi uma lavada de 49 a 32 para Sarney.

Qualquer ser humano estaria em estado de graça. Mas não quem vivia em estado de permanente sobressalto, antevendo a mortal possibilidade de mais uma vez o sobrenome Sarney aparecer nas páginas da crônica policial.

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