sobre necessidade de estudantes….

A universidade não é sensível às demandas dos estudantes ou mesmo de outro membro qualquer, mas comporta-se como uma linha de produção de uma fábrica qualquer. A produtividade é o indicador.

O relato é referente à década de 1990 (meados).

Duas horas da madrugada, no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Mês:junho.

Está frio. Muito frio. Os casacos grossos e as luvas aquecem o corpo, enquanto a leitura de artigos científicos disponíveis na rede ou xerocados à tarde acompanham a rotina do mestrando. Havia uma cota de fotocopias, mas com jeitinho sempre se conseguia uns artigos a mais. A leitura era interrompida, por uma vistoria ou outra rumo à sala de esterilização dos meios de cultivo. Já que não se iria dormir até às três e trinta, o melhor era adiantar alguns protocolos do dia que amanheceria em breve.

O cochonete já estava pronto, aguardando o corpo já quase pesado do estudante que se preparava para a última troca de solução tampão no processo de purificação de proteínas. Os objetivos: (1) remover o sal do extrato protéico; e (2) deitar e dormir o mais rápido possível pois pela manhã era necessário acordar antes da chegada dos funcionários e professores. Afinal, não era nada agradável ser surpreendido ainda dormindo em um cochonete no chão do laboratório, ainda que fosse na sala dos computadores.

A ansiedade, apesar da rotina, era companheira fiel. Não se pode dizer que nos acostumamos àquela rotina, mas que a acolhemos. Assim, a ansiedade, por realizar uma etapa que daria um tregua na madrugada, insistia em tagarelar partes profundas da mente e mesmo a superfície do corpo, que já se movera e buscava as chaves.

A câmara fria. Uma sala amedrontadora com suas manivelas quebradas. Só de pensar no risco de aquela porta fechar com você dentro, fisgava as memórias de filmes de suspense assistidos na infância. Eram duas pequenas salas. Uma antecâmara e uma câmara fria. A lembrança que não podia falhar, era a de colocar alguma barreira impedindo que a segunda porta se fechasse enquanto o pesquisador solitário estivesse dentro daquela “cova” gelada. O ambiente gelado ajudava a conservar microrganismos e criava o ambiente macro necessário para procedimentos sensíveis ao calor. O cansaço nesta hora, inesxitia. Tinha que inexistir. Qualquer falha resultaria em volta a estaca zero.

Assim, antes de chegar à câmara fria, atravessando um corredor entre os blocos, aproveitava-se para espiar as luzes em outros laboratórios. Nenhuma surpresa. Apesar de muitos estarem dormindo, máquinas automáticas funcionando, e portas seladas esperando pela manhã, em outros, avistava-se o trabalho de companheiros pelo trocar de luzes acessas, movidas por seus interruptores. Ou por brilhos azuis atenuados pelas janelas. Uma luz azul que escapava pelas frestas dos laboratórios, indicando leituras atentas na madrugada. O mestrando não era único naquela missão gelada.

Passos firmes, rumo à câmara fria. E os mantras repetidos involuntariamente. Abrir a porta. Colocar o anteparo. Verificar se foi colocado com segurança. Derramar a solução tampão antiga e colocar a nova. Certificar-se que a diálise vai resistir. Sair da câmara e selar bem a porta. Ufa! Missão cumprida.

Os passos rápidos agora são de retorno. O que se pretende é dormir o máximo possível. Mesmo que isto represente apenas duas horas e meia de sono. A companhia seria das pequenas baratas que trabalham durante as noites no laboratório. Incansáveis.

Mesmo quem realizara iniciação científica e convivia com aquele laboratório há anos, vez ou outra precisava virá a noite em vigilia. Ninguém sequer questionava (ou questiona?) tais labores. O simples vislumbrar do “paper” já injeta a energia necessária para todos os procedimentos. Mas, os “calangos”, estes que construíram Brasília, também eram maioria dos madrugadores, dos viradores de noite. Atraídos por promessas de ascensão profissional, afinal seria depois disputados como debutantes. Valeria o sacrifício. A volta ao sertão agreste permitiria uma transformação social, não apenas pessoal mas principalmente regional-social por sua contribuição ao desenvolvimento   de sua terra. Os calangos sempre mandam em cartas seus parcos proventos que sustentam os sonhos de sua prole presente ou futura.

Nem todos os laboratórios, eram comandados por pessoas sensíveis. O nosso laboratório, era talvez um (senão o mais) dos mais democráticos. Nossos orientadores, chefes, sempre foram muito acessíveis. E nos escutavam. Mas, escutar não é sinônimo de concordância. Nem de disposição a mudanças.

Lembro-me de certa vez em que sugeri….

Sugeri porque imaginei (ingenuamente) que não havia sido sugerido anteriormente. Talvez, a rotina estafante e os focos direcionados para a produção do saber tivessem criado um neblina impedindo visualizar certas ocorrências menores, como as necessidades dos pesquisadores (operários) e a escassez de recursos físicos (a despeito dos protocolos de segurança laboral já amplamente disponíveis na literatura). Enfim, lembro de ter sugerido “en passant” que se pensasse em disponibilizar uma sala por bloco para descanso e suporte dos pesquisadores, seguindo o modelo das salas de repouso de hospitais, por exemplo.

Jesus. Confesso que ateisticamente, pensei Jesus. Após a resposta. Não que tenha sido arrogante, grosseira. Não, não foi. Ao contrário, foi até serena. Mas de uma serenidade insensível. Afinal, o argumento basal foi uma reflexão de qual o desenrolar dos eventos se se destinasse uma sala para tais necessidades.

– Ora, isto é meio caminho para se criar uma moradia universitária. Não. De jeito nenhum. Isto viraria uma baderna!

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