“As convicções são esperanças”, do site Tijolaço

O companheiro Eduardo Costa, médico e dirigente nacional do PDT, nos envia um relato da visita que fez ao Pinheirinho. Diz ele que, preferiu não falar de sua indignação com o episódio  e com a inação dos partidos políticos, inclusive o seu, diante dele, para contar o que viu. Mas pergunta como pode uma juíza, capaz de comandar toda essa barbárie, pôde desconhecer que o direito constitucional da moradia não é “uma nada” e que o interesse de uma massa falida de um especulador possa prevalecer sobre ele, aos trancos.

“A reintegração de posse anula a posse e o direito sobre objetos pessoais até mesmo de um eventual “criminoso”, pergunta Eduardo, relatando que as pessoas se viram privadas, além das casas que ergueram, de todo o pouco que possuíam. E lembra que, maiores ainda, são os danos morais que sofreram ao ser escorraçados como animais.

“Há uma fila de destruidores de Pinheirinhos no Brasil, e este caso merece ser uma resposta exemplar a todos eles”.

O relato de Eduardo:

Uma fila de Pinheirinhos

Depois de participar no dia 2 de fevereiro de ato promovido por sindicatos e associações, com forte presença de ex-moradores e partidários do PSTU, e com a presença de dois deputados federais pelo PSOL – um deles Chico Alencar, que representava a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, resolvi visitar alojamentos coletivos onde a prefeitura de São José dos Campos depositou os desabrigados pela barbárie jurídica e policial e que agora procura dar o melhor tratamento assistencial possível pela notoriedade que ganhou o episódio.

Conversei com alguns deles para saber de suas necessidades imediatas; pedi indicações para chegar em Pinheirinho. Perto do Campo dos Alemães, já no caminho para Jacareí, chega-se à Estrada do Imperador e nela logo se avista a fila de pinheirinhos margeando a estrada. Nos perdemos, mas achamos. Há falhas na fila de pinheirinhos que permitem a vista ampla da área destruída.

Não havia vielas, não era uma favela, como estamos acostumados a ver nas grandes cidades. A área é descampada, onde cerca de 1200 famílias se assentaram e se organizaram com ruas largas, distribuição de luz, recolhimento de lixo, fossas sanitárias, já que o estado é omisso, insuficiente com os seus cidadãos. Do outro lado da estrada estão “jardins” nascidos de projetos de urbanização local financiados pela prefeitura, pois há uma zona industrial próxima, um tanto decadente, pelo olhar. Mas, ao horizonte, para os “fundos” de Pinheirinho, vê-se o descampado, capões de árvores replantadas. Há uma  indústria “colonial” de móveis, não muito afastada. Outra informação: fica praticamente no meio de duas rodovias muito importantes: uma federal (a Dutra) e outra estadual (a Carvalho Pinto). Ora, não é demais lembrar que João Goulart foi deposto por, entre suas iniciativas, propor a expropriação das terras desabitadas e improdutivas às margens (10 km) das rodovias federais. E a comunidade Pinheirinho é ainda delimitada pela estrada do Imperador e pela estrada velha Rio – São Paulo, no ponto de intercessão: tudo construído com o dinheiro público.

Recomendo procurar no “Google maps” o local, antes da destruição. (Link: <http://maps.google.com/?ie=UTF8&ll=-23.270617,-45.906571&spn=0.002449,0.004812&t=h&z=18&vpsrc=6>) “Viaje” no local ou ande a pé – você até verá uma placa do orgulho da comunidade – alta e grande, antes de derrubada: 100% Pinheirinho!

Miro agora o local. Não, não foi um tornado que passou por aqui. A fúria era “inteligente”. E mais destruidora. Como uma cirurgia bem calculada, queria destruir células malignas: pobres com capacidade de construir um mundo diverso, inaceitável para o organismo sadio da sociedade brasileira. Como num protocolo médico moderno, a receita era precisa: extirpar somente o necessário. Teste exemplar para a fila de Pinheirinhos para o Brasil afora, que teve sua primeira suíte num prédio da cidade de São Paulo e está prometido agora para a favela Savoy, onde moram 5 mil famílias.

Não é retórica, das balas de borracha, às rodas dos tratores, tudo calculado como em filmes de policiais do futuro. Claro que pequenos erros ocorrem, mas podem sempre punir exemplarmente quem errou: como o policial que baleou pelas costas um operário que está internado em São José dos Campos. No caso da menina assassinada, não há cadáver: a mãe foi colocada com ela dentro de um veículo e sumida.

Algum maquinista também pode ter errado e destruído algum arbusto, mas chama atenção, apesar do tamanho das patrolas, que só as casas, os postes, e todos os pertences foram pulverizados. Em meio aos escombros, não os animais de estimação vivos ou mortos (todos desaparecidos), mas arbustos, pequenas árvores de sombra generosa, bananeiras, solitárias ou pequenos grupos, típicos de quintais suburbanos, seguem impávidas: ecologicamente poupadas – a condenação era à obra do trabalhador em suas horas de folga, quando pode construir para a família.

Não se distingue com clareza as ruas: tudo foi espalhado sobre elas para que, sem desnivelamento, possa ser aterrado. Simbolicamente fotografei computadores despedaçados nos escombros, de um sobrou uma tela intacta, no meio dos cacos.

Corram atrás – o protocolo fascista, que não vi, existe, como nas pesquisas de Mengele, e de nossa capacidade de denunciá-lo e proscrevê-lo, mandando-o às profundezas de onde veio, depende um futuro realmente sadio para os brasileiros.

Para alem da questão que envolve política partidária e uma visão de capitalismo financeiro avançado no meio de pobres, miseráveis, iletrados, despossuídos, subempregados, aposentados, velhos, crianças, existe agora o projeto assistencial local: as famílias receberão 500 reais mensais para pagar aluguel. Se for uma única pessoa que habitava uma residência, não está habilitada porque não era família. Dona Maria Isabel pedia ajuda: correu e firmou um contrato de aluguel por 500 mensais, que me mostrou, numa página arrancada de caderno. Estava preocupada pelas meninas não terem nem como se vestir dentro daquele estádio poliesportivo com dezenas de famílias amontoadas. (Uma pilha de roupas doadas perto da porta está a disposição para que, em que cada dia, procurem para ver se alguma serve.) Mas não recebeu e não pode se mudar, sem pagar o primeiro mês. Ela teve sorte: a maioria dos senhorios locais exige TRÊS meses de depósito: impossível. Do senhor Pedro ouvi que o aluguel encareceu na região: agora não se acha nada por menos de 1000 reais mensais.  Ele quis me dar um furo de reportagem: ali estava abrigado um primo de Lula, o José Inácio da Silva, mas tinha saído para almoçar noutro lugar. Reclamava dos ventiladores instalados precariamente para diminuir o calor na quadra coberta por zinco não funcionarem. Muitos mantinham-se deitados no chão, distantes, visivelmente abatidos. Era hora da boia, a fila era grande. Muitos dividiam o mesmo prato com as crianças. Alguns compraram próximo um refrigerante para acompanhar o almoço.

Na fila umas senhoras contavam que na confusão perderam o dia da matrícula dos filhos e nem sabem se vai dar para continuar na mesma escola, depende de onde forem morar. Os lideres do pessoal da quadra estavam ainda em São José dos Campos (no ato) lembro o nome de dois dos três nominados: o Marron e o Sérgio, gostaria de ter falado com eles. Deixei meu telefone e falei que estava em ligação direta com a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara, com o Deputado Chico Alencar – não pareceu significar nada.

Muitos elogiaram a minha camiseta – que comprei no ato – ela foi meu passaporte de acesso no meio deles, como me avisara o amigo militante Catatau do PSTU, que não podia me acompanhar na visita. Estampava uma foto da resistência preparada à invasão da qual estavam cientes dias antes: escudos feitos de tonéis de plástico de produtos químicos cortados verticalmente ao meio para parar as balas de borracha. (No ato serviam de tambores para rufar e prometer luta sem trégua). Capacetes de motoqueiros com a viseira baixa para proteger a face. E a frase de Bertold Brecht: 
“AS CONVICÇÕES SÃO ESPERANÇAS”

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