A censura em Pinheirinho ficou alheia às narrativas da “barbárie”, e o Rio de Janeiro não está caindo aos pedaços

Erramos, erraram

 

Por Janio de Freitas em 31/01/2012 na edição 679

 

 

As fotos e vídeos de Pinheirinho que horrorizaram com o que a própria presidente da República chamou de “barbárie” (do que se espera, portanto, alguma providência de governo) foram obtidos apesar da proibição, pela PM, de entrada de jornalistas na área da ação policial. Por algum motivo obscuro, que pode ser, por exemplo, a grande e permanente preocupação com restrições à imprensa em outros países, sejam ou não verdadeiras, o impedimento ao trabalho dos repórteres em Pinheirinho ficou alheio às narrativas da “barbárie”.

A censura policial tornou-se notícia no quinto dia depois de imposta, na quinta página do caderno “Cotidiano” da Folha de S.Paulo, em trabalho bem realizado por Jean-Philip Struck.

Além das armas de ataque físico e da arma ilegal que é a censura, a PM paulista armou-se também com a mentira. Em diferentes ocasiões, foi dito que à imprensa estava “dada liberdade total” para a cobertura de Pinheirinho, na expressão reproduzida por Struck. O mesmo disseram, inclusive, autoridades do governo paulista.

Noticiário do desastre

O coronel Manuel Messias, da PM, mentiu com gravidade ao menos duas vezes em curta entrevista. Dissera que a PM só usou gás lacrimogêneo contra os moradores de Pinheirinho, o que era mentira. Foi refutado por uma repórter da CBN, com a referência a tiros de borracha e consequentes feridos. Messias retrucou, com certo deboche, que esses tiros fazem “só vermelhidão”, o que é mentira. Ferem, e podem fazê-lo com muito perigo a depender do lugar atingido. Conviria a Messias acautelar-se, para não se tornar coronel de mentira.

No outro acontecimento horrorizante da semana, a liberdade de imprensa foi levada ao anedótico na maioria do noticiário estrangeiro, sobre os desabamentos no Rio, por grandes meios de comunicação. Ligar os riscos dos estádios da Copa aos três desabamentos é muito mais do que leviandade. Mas tem sido um lugar-comum na imprensa e em telejornais americanos e europeus.

Wall Street Journal, especialista em cifrões, concluiu, a propósito do desabamento, que a infraestrutura do Rio está se desmanchando. Às vésperas da Copa. A CNN incluiu até a Petrobras no noticiário do desastre. Salvam-se mais ou menos os de sempre: o Guardian inglês, o velho Le Monde, mais um outro europeu e alguns latino-americanos.

Em contraste, fiquemos tranquilos quanto aos correspondentes brasileiros no exterior. Na grande maioria, são sérios e competentes.

***

[Janio de Freitas é jornalista, colunista da Folha de S.Paulo]

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